
Não me surpreende que no dia 17 de Junho o Superior Tribunal Federal tenha decidido por 8 votos a 1, a não obrigatoriedade do diploma de graduação para o exercício da profissão de jornalista. Não existe surpresa porque essa decisão é um reflexo do próprio entendimento de um amplo setor de nossa sociedade em relação ao que é ou não é uma atividade “profissional”, e quais são as supostas competências técnicas, cientificas e metodológicas (caso seja admitida a sua existência) que cada qual desempenha, dentro de uma arbitraria hierarquia de mérito e poder, que ao mesmo tempo é causa e conseqüência dos preconceitos e da “diferenciação” entre profissões.
Vivemos uma luta por reconhecimento social, em que o exercício do poder jurídico e político (e suas forças simbólicas) são à base da divisão e diferenciação no reconhecimento social de cada setor profissional. Assim os “senhores do judiciário” podem determinar tal ou qual profissão deve ter ou não uma regulamentação ou determinado pré-requisito legal, como no exemplo recente do jornalismo, que eles julgaram não ser mais uma profissão que necessite uma formação especifica. Eles podem julgar (e julgaram) mesmo não detendo o conhecimento na área especifica.
Esses senhores sabem de algo que está muito além das leis e da ciência jurídica, eles sabem que dentro da relação de poder de nossa sociedade eles podem determinar o mérito e a colocação social de outra profissão a revelia dela, podem arbitrar sobre o que é ou não conhecimento de ordem técnica, mesmo não sendo profissionais desta área. Assim um grupo de ignorantes em relação à formação e o exercício profissional do jornalismo, podem determinar que não é necessário ter graduação para ser jornalista.
Essas relações de poder entre as categorias profissionais e seus reflexos sociais estão presentes em todos os campos de trabalho, sendo que a questão entre o jornalismo e o judiciário foi apenas um exemplo que ficou mais evidente nas últimas semanas. Temos por exemplo na área da saúde uma idéia bizarra de que a medicina (na figura do médico) é a principal profissão, a que detém o conhecimento “superior”, e que as outras profissões são meros apêndices ou auxiliares. Como se o nutricionista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo e as dezenas de outras categorias na saúde estivessem um degrau abaixo na sua função e competência, a velha e anedótica história do DOUTO MÉDICO (os doutores sem doutorado, nada contra, só que é engraçado). Outro exemplo, na área de ensino um engenheiro civil pode lecionar matemática ou física e um advogado pode lecionar história ou português, mesmo esses profissionais não tendo formação para exercer a docência, algo que não acontece na relação inversa. Temos ai uma clara relação de hierarquia por competência, "todos" dão aula (inferior) alguns planejam obras e advogam (superior).
Podemos dar dezenas de exemplo dessas relações de poder entre profissões, mas seria inútil, pois infelizmente o que esta por trás dessa realidade é a cultura da ignorância e do misticismo, que segue manipulada pelos grupos interessados em sua manutenção. Lutar contra é muito difícil, a última batalha não foi perdida por um placar de 8 a 1 como pareceu, mas já era perdida pela simples existência desse placar, independente do resultado futuro, enquanto existir essa arbitrariedade, estaremos perdidos.


