terça-feira, 28 de julho de 2009

Profissões, poder e cultura.

Não me surpreende que no dia 17 de Junho o Superior Tribunal Federal tenha decidido por 8 votos a 1, a não obrigatoriedade do diploma de graduação para o exercício da profissão de jornalista. Não existe surpresa porque essa decisão é um reflexo do próprio entendimento de um amplo setor de nossa sociedade em relação ao que é ou não é uma atividadeprofissional”, e quais são as supostas competências técnicas, cientificas e metodológicas (caso seja admitida a sua existência) que cada qual desempenha, dentro de uma arbitraria hierarquia de mérito e poder, que ao mesmo tempo é causa e conseqüência dos preconceitos e da “diferenciação” entre profissões.

Vivemos uma luta por reconhecimento social, em que o exercício do poder jurídico e político (e suas forças simbólicas) são à base da divisão e diferenciação no reconhecimento social de cada setor profissional. Assim os “senhores do judiciário” podem determinar tal ou qual profissão deve ter ou não uma regulamentação ou determinado pré-requisito legal, como no exemplo recente do jornalismo, que eles julgaram não ser mais uma profissão que necessite uma formação especifica. Eles podem julgar (e julgaram) mesmo não detendo o conhecimento na área especifica.

Esses senhores sabem de algo que está muito além das leis e da ciência jurídica, eles sabem que dentro da relação de poder de nossa sociedade eles podem determinar o mérito e a colocação social de outra profissão a revelia dela, podem arbitrar sobre o que é ou não conhecimento de ordem técnica, mesmo não sendo profissionais desta área. Assim um grupo de ignorantes em relação à formação e o exercício profissional do jornalismo, podem determinar que não é necessário ter graduação para ser jornalista.

Essas relações de poder entre as categorias profissionais e seus reflexos sociais estão presentes em todos os campos de trabalho, sendo que a questão entre o jornalismo e o judiciário foi apenas um exemplo que ficou mais evidente nas últimas semanas. Temos por exemplo na área da saúde uma idéia bizarra de que a medicina (na figura do médico) é a principal profissão, a que detém o conhecimento “superior”, e que as outras profissões são meros apêndices ou auxiliares. Como se o nutricionista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo e as dezenas de outras categorias na saúde estivessem um degrau abaixo na sua função e competência, a velha e anedótica história do DOUTO MÉDICO (os doutores sem doutorado, nada contra, só que é engraçado). Outro exemplo, na área de ensino um engenheiro civil pode lecionar matemática ou física e um advogado pode lecionar história ou português, mesmo esses profissionais não tendo formação para exercer a docência, algo que não acontece na relação inversa. Temos ai uma clara relação de hierarquia por competência, "todos" dão aula (inferior) alguns planejam obras e advogam (superior).

Podemos dar dezenas de exemplo dessas relações de poder entre profissões, mas seria inútil, pois infelizmente o que esta por trás dessa realidade é a cultura da ignorância e do misticismo, que segue manipulada pelos grupos interessados em sua manutenção. Lutar contra é muito difícil, a última batalha não foi perdida por um placar de 8 a 1 como pareceu, mas já era perdida pela simples existência desse placar, independente do resultado futuro, enquanto existir essa arbitrariedade, estaremos perdidos.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Nossa política


Os filósofos, historiadores, sociólogos, cientistas políticos e outros grupos de “pensadores” se debruçam há séculos, ou mesmos há milênios na busca do entendimento do que é a “política” e o “político”. Voltemos aos clássicos da antiguidade, do medievo e da modernidade, e veremos que a “política” quase sempre esteve presente nos debates, como um conceito a ser discutido ou explicado. Em cada época a política aparece sobre uma diferente perspectiva. Pois bem, o que seria a “política” na atualidade? A “política” que nos envolve nos jornais, revistas e no cotidiano, que política é essa?

Observo que a política no Brasil atualmente se resume em dois pontos: as eleições e os escândalos (não irei cita-los, acho que não cabe no blog...). As eleições como a “festa da democracia” ou a “festa do comodismo ”nacional (dependendo do ponto de vista). E os escândalos como frutos de um complexo e viciado “jogo” de interesses.

A eleição é o momento em que os homens da “política” correm para garantir um lugarzinho (ou lugarzão) no poder, fazendo de tudo para isso: caixa dois, estranhas alianças, pactos espúrios, compra de votos e até mesmo convencendo as pessoas a voltarem neles, seja por convicção ou falta de opção. No fim muitos alcançam o objetivo, eleitos ou nomeados (em cargos de CONFIANÇA). O que percebo é que as eleições não se relacionam em nada com a disputa entre projetos políticos diferenciados, alternativas ou continuidades embasadas, sobre visões diferentes e conflitantes do seria um país, um Estado e suas relações estruturais. Não, as eleições são apenas um disputado mercado dos cargos estatais e do controle do poder que emana deles (principalmente as nomeações e a manipulação financeira lícita e ilícita).

Os escândalos parecem ser o simples desvelar de relações políticas corrompidas e ilegais, quando os casos de corrupção vão à mídia, os acusadores e acusados, as pastas e os dossiês, as contas e as orgias... Exceções pontuais (para os “inocentes”!?!?) ou um produto da própria cultura e da mentalidade nacional, algo mais profundo, resultado de uma histórica má relação entre os “políticos” e a coisa pública, herança das práticas oligárquicas e patrimonialistas de nossos governantes.

Acredito que hoje os escândalos estão um pouco além da simples aparição pública dos “casos” de corrupção, há uma rede mais complexa, que liga todos os políticos, os partidos e a mídia (um não vive sem o outro), uma fabrica de escândalos. Funciona assim: todos têm rabo preso, mas em um momento ou outro de desavença um deles faz um dossiê, levando-o a mídia, que prontamente cria um espetaculo, daí os espectadores (nós) ficamos irados, queremos entender, abres-se uma CPI. Logo quem é acusado ameaça “contar tudo”, nós ficamos mais irados ainda, surge então outro escândalo, a velha CPI esfria (pois o causador do escândalo iria “contar coisas”), durante um tempo à mídia resmunga de mais uma pizza, para logo esquecer e entrar de cabeça em outro escândalo (a novela sempre acaba deixando outra em seu lugar). Por fim nós ganhamos dores de cabeça, gastrite e uma descarga de indignação interna e mais nada.

O maior e mais importante escândalo em nosso país, é o nosso entendimento e aceitação de que política se resume a eleição e a escândalo, o resto é conseqüência.