sábado, 14 de fevereiro de 2009

A pior conseqüência da crise

Tenho muita desconfiança sobre toda essa reverberação em torno da crise financeira mundial. Não estou dizendo que a crise não tenha importância, ou que ela seja um alarme falso, pelo contrário, e só olhar para ver o abalo no sistema de credito e produtivo que surgi sobre nossas cabeças como uma avalanche em câmera lenta. As ondas de demissões chegaram, a cada notícia transmitida pelos rádios, TVs e jornais, apresentam-se novos números referentes à indústria que no mundo inteiro demite ou coloca em férias coletivas centenas e milhares de operários. As crises são assim mesmo, primeiro engolem o sistema produtivo, depois vai o resto, o horizonte está meio nebuloso...

Os governantes do mundo todo buscam medidas e ações para minimizar os efeitos da crise, ou pelo menos remediar sua chegada à economia real, o que aumenta o prazo para que se possa efetivamente sair dela. Milhões e Bilhões de dólares são mobilizados pelos Estados em todo o globo para salvar a economia de mercado (que durante a crises parece não ter uma mão tão invisível e querer ser tão livre). Os grandes capitalistas tomam uma iniciativa: passam o chapéu para angariar dinheiro Estatal (com juros e prazos bem confortáveis). Ontem o Congresso estadunidense aprovou uma medida de salvamento que tem desenhado em suas linhas uma cifra de 800 Bilhões de dólares (nem sabia que existia tanto dinheiro no mundo...).

Voltando agora para minha desconfiança... Apesar da crise ser uma catástrofe econômica global, ela acaba se tornando por sua própria natureza, um ambiente privilegiado para certas medidas serem tomadas, medidas essas legitimadas por um discurso que já demonstrou ser falido, mas sempre está na pauta dos capitalistas. Dizem que o problema da economia, seja nacional ou internacional, é o excesso de leis que acabam atrapalhando o dinamismo do mercado de trabalho (traduzindo: querem acabar com as garantias mínimas que os trabalhadores conquistaram ao longo da história).

Apesar dos capitalista terem um excelente justificativa nesse momento para demitirem e jogarem na rua centenas de operários (que não são só números, mais seres humanos que tem famílias e dependem do emprego para sobreviver minimamente, pois dignamente já é difícil), eles também querem acabar com todas as garantias e proteções que o Estado ainda oferece ao trabalhador.

Os capitalistas que hoje exigem dinheiro do Estado (que até pouco tempo eles o satanizavam), é correm como bezerros loucos atrás das tetas estatais, são os mesmos que por ingerências e falsificações causaram a crise, ganharam milhões e bilhões inventando dinheiro, falsificando contabilidade e sonegando impostos. Minha desconfiança é nesse grupo, que enxerga o ser humano como número e tem a conta bancária como único objetivo de vida, esse caras conseguem impor esse discurso perverso, que acaba sendo engolido e digerido por todos, virando a formula mágica para sair da crise, que é repetida em todas as classes e esferas e tida como única e verdadeira solução possível. Esse discurso fundamenta-se no seguinte tripé: enxugar a maquina demitindo no limite do possível, sugar todo dinheiro estatal que vem para o socorro da crise e destruir todas as conquistas sociais e trabalhistas da população. A pior conseqüência que a crise pode trazer é tornar esse discurso vitorioso e hegemônico.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Hugo Chávez: 10 anos no poder

Hoje completam 10 anos da subida de Hugo Chávez ao poder na Venezuela, colocando um fim em mais de cinqüenta anos de dominação do COPEI e da AD, os dois partidos que se revezavam no Estado venezuelano e protagonizavam o poder político naquele país. A subida de Chávez marca uma nova era na sociedade venezuelana como um todo, rearranjando o cenário político, social, econômico e cultural da nação.

Mais do que se acusar ou se elogiar o governo de Chávez, devemos analisar e ressaltar a importância da existência dessa experiência política, que surgiu em um momento de trevas da política internacional (anos 90), onde se parecia não haver mais alternativas a economia neoliberal (que hoje se mostra fracassada) e sua globalização excludente, que ecoavam como a única e verdadeira voz. Nesse cenário mundial surge a figura de Chávez.

Chávez não aparece apenas como uma alternativa nacional, mas como uma importante referencia internacional, principalmente para a América Latina. Sua subida ao poder e sua aparição internacional, a partir de suas posições políticas, programáticas e pessoais, dão um importante fôlego para constituição de uma nova situação política, que supera a mesmice, a hipocrisia e subserviência do momento anterior.

Não estou defendendo a política chavista, apenas estou apontando como foi e é importante a existência de personalidades como a de Hugo Chávez, que por sua postura não alinhada, conseguem forjar uma situação onde muitas mascaras caem, e a cômoda hipocrisia, tem de se posicionar diante de propostas que até certo ponto fogem da agenda do establishment. Por exemplo: muitos defensores árduos da democracia foram a favor ou coniventes ao golpe de 2002, que tentou derrubar o governo democraticamente eleito de Chávez. Outro exemplo: criticou-se muito Chávez por ter caçado o direito público de transmissão da rede de televisão RCTV, sendo que países como a Inglaterra e os Estados Unidos, tem tal ação como prática rotineira. As mesmas pessoas que criticaram Chávez por autoritarismo e perseguição parecem desconhecer as torturas praticadas em Guantânamo.

Assim podemos ver como Chávez traz a tona uma centena de paixões e ódios, que em um ambiente de hegemonia e unilateralimo, nunca se aflorariam, e estariam escondidos por traz das mascaras políticas contemporâneas: democracia, pluralismo, igualdade de direitos e toda uma retórica liberal, que na prática dificilmente escapam ao autoritarismo, exclusão e o privilegio jurídico por meios econômicos e políticos.

Chávez talvez seja mais importante por acenar para a existência de possibilidades de transformações do que pelas próprias transformações propostas e praticadas por ele.

Barack Obama e a lógica estadunidense: entre o feitiço e o feiticeiro


Em seu discurso de posse Barack Obama conclamou todos os fantasmas e mitos americanos, dos “fundadores da pátria” aos “homens e mulheres que trabalham na escuridão anônima”, esbravejou contra “os que preferem o lazer fútil ao trabalho árduo”, tudo isso para reconfortar e reanimar a nação norte-americana, em um momento extremo de crise. A crise é o momento de revalidação dos mitos e o período de se reviver seus rituais.

Todos esses mitos e fantasma podem ser excelentes propulsores de mudanças e melhoras, ou podem se transformar em caricaturas retóricas de um desastre político. Esses dois caminhos opostos estão presentes na História norte-americana e fazem parte da própria natureza genética dos discursos e sermões, que estão enraizados na velha herança puritana estadunidense, que conclama a “vitória glorificante” ou a “derrota humilhante”, nesse sistema dual as coisas são simples: ou você é um vitorioso ou um perdedor, não existem possibilidades medianas e razoáveis, tudo está disposto nos extremos.

O que se pode esperar da “Era Obama”? Qual será o resultado das esperanças depositadas e das expectativas geradas pelo novo governo?

A resposta pode ser difícil, mas com certeza está limitada às duas alternativas que compreendem a lógica estadunidense: o triunfo ou a derrota total, não há espaço para o meio termo. As analises sobre Obama serão simples: ou ele será lembrado como um vitorioso ou como um “loser” canastrão.

Assim Obama que utiliza a seu favor toda lógica e a mentalidade estadunidense, descarregando a retórica norte-americana contra seus inimigos, pode futuramente ser vitima de suas próprias palavras. Não existe um proprietário para as palavras e os símbolos, pois estes são apenas ferramentas utilizadas na luta pelo poder, e estão à mercê das vicissitudes da História.